“Lembro melhor quando pinto”

29/01/2010 por 0

Tenho que confessar: o uso de artes ou atividades manuais como recurso terapêutico nunca foi meu forte, mas há um tempo minhas “resistências” têm sido quebradas quando conheço experiências como a do documentário “Lembro melhor quando pinto”.

Esse documentário trata do impacto positivo da arte e outras terapias criativas em pessoas com doença de Alzheimer. O filme mostra a forma como as artes levam à mudanças nas pessoas com demência. “Muda seu comportamento. Traz à tona um tipo especial de vibração nelas. Arte permite que essas pessoas sejam melhor compreendidas, olhando para seus rostos”, afirma o Blog Alzheimer’s Reading Room.

Na estreia do documentário houve uma palestra com pesquisadores e representantes de entidades americanas. Os investigadores do Centro da doença de Alzheimer na Universidade de Boston apresentaram os sucessos  com medicamentos experimentais em ratos de laboratório criados para ter Alzheimer. No entanto, relataram também o desafio de trazer “sucesso” para pacientes humanos. Até agora, os medicamentos que estão sendo desenvolvidos têm impacto muito lento no Alzheimer, mas ainda não pode dizer que chega-se a curá-lo.

Essa realidade torna evidente que muitas pessoas ainda vão viver com a doença e inevitavelmente com suas consequências. Foi discutido na palestra o medo das limitações que as pessoas com Alzheimer e seus parentes enfrentam. Os palestrantes falaram sobre o estigma de ter Alzheimer. As famílias imediatamente passam a ver os clientes como um “paciente” (eis o motivo que não gosto de usar essa palavra, sempre prefiro cliente a paciente; para mim, paciente remete a doença). Muitas famílias vão para os médicos dizendo que a pessoa de Alzheimer “não pode” fazer. Todos os palestrantes salientaram a importância de permitir que as pessoas com Alzheimer “façam tantas coisas quanto possível – deixe-os fazer o que podem fazer”. “É importante descobrir o que a pessoa pode fazer e gosta de fazer”, palavras ditas na palestra.

Muitas famílias têm atitudes negativas, sentindo que a pessoa “já não existe”. É importante perceber que a pessoa sempre lá. Precisa-se ajudar as pessoas com  a Alzheimer a encontrar coisas que aprecie, e assim eles se tornarão “mais lá”.

O documentário, “Lembro melhor quando pinto”, começou como um estudo de caso de Hilda, uma mulher de 90 anos de idade com doença de Alzheimer que tinha sido uma pintora de sucesso. Hilda, agora em uma instituição para idosos, ficou apática e facilmente agitada. Em um esforço para chegar até Hilda, um dia sua filha lhe perguntou: “Mãe, você quer pintar?” e Hilda respondeu: “Sim, lembro-me melhor quando eu pinto.” A conexão tinha sido feita! Ela se tornou mais concentrada quando envolvida na sua arte. Ela respirava mais lento, ficava mais calma e tornou-se mais receptiva à comunicação.

Depois de um tempo, Hilda havia criado uma nova família com os estudantes de arte que a visitavam e estimulavam, e acabou produzindo 300 pinturas. Ela também desenvolveu uma “melhor noção da realidade”, uma vez disse: “Aqui vem o real!” quando sua filha chegou para uma visita.

Vários outros estudos de casos foram apresentados no documentário. Em todo caso, o valor das artes foi surpreendente. O médico explicou que novas maneiras de desvendar as memórias de pessoas que sofrem de Alzheimer começam a ser encontradas. Ele disse que o lobo parietal está envolvido apenas muito tarde na doença de Alzheimer. O lobo parietal é estimulado pela arte, e a informação anterior a doença ainda está lá em pessoas com Alzheimer. O que é necessário é abrir um caminho novo para as informações antigas. Às vezes, a arte pode fazer isso.

O filme e os médicos explicaram que as artes são uma porta. Assim que a porta está aberta, mundos estão abertos. A pessoa com Alzheimer leva em cores, formas e formas que são reais e têm significado, mesmo em não-verbal do cérebro de uma pessoa com Alzheimer avançado.

No filme, um médico contou como ele freqüentemente leva as pessoas em fase moderada a final de Alzheimer para museus de arte. Às vezes, as pessoas não acreditavam que os pacientes que eram levados tinham Alzheimer em fases mais avançadas porque eles estavam tão envolvidos com a arte.

Os médicos presentes no painel de discussão disseram que um problema é que as pessoas ainda vêem artes e ofícios (atividades manuais?) como apenas uma maneira de passar o tempo e não como um tratamento essencial. Disseram na palestra que em muitos casos, “a arte era tão eficaz quanto as drogas!” Salientou-se que a arte não deve ser tratado apenas como uma estratégia superficial no atendimento desses indivíduos, deve ser uma parte fundamental do cuidar.

Um membro da platéia disse que sua família tinha financiado um programa de artes para pessoas com Alzheimer em Connecticut. O objetivo desse programa é substituir a agressividade e  a apatia por atenção, engajamento, elevação do humor e melhoras da memória.

Bem, depis de tudo isso acho que tenho mesmo que quebrar minhas resistências, não??? Ah, uma coisa importante a ser dita é que os médicos, durante a palestra supracitada, defenderam que as artes tem um efeito maior quando seu realizadas pelos clientes, tendo em vista o envolvimento emocional com a atividade. Muito bom, né??

Vamos ao discutido documentário?? Esta bem aí em cima… (só não é em português).

Ana Katharina Leite

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Sobre o autor

Terapeuta ocupacional graduada pela UFPE. CREFITO 10476. Especialista em Tecnologia Assistiva pela UNICAP. Mestre em Design e Ergonomia pela UFPE. Administradora e colunista do reabilitacaocognitiva.org.
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